Título original: Das Parfum: Die Geschichte eines Mörders
Sinopse:
Esta estranha história passa-se no século XVIII e há todo um extraordinário trabalho de reconstituição histórica, não só da época e das mentalidades como do ofício de perfumista, que então era particularmente valorizado e que estava a cargo de artesãos especializados. O autor conduz o leitor de página em página, de odor em odor, de perfume em perfume, enebriando-o, arrebatando-o nessa alquímica busca do Absoluto que é a do seu personagem: a busca do perfume ideal, isto é, a forma suprema da Beleza. Nesta busca nada deterá Jean-Baptiste Grenouille - que nascera no meio dos mais nauseabundos fedores, numa banca de peixe -, nem mesmo os crimes mais hediondos. Este personagem possui no entanto algo de extremamente inquietante, a sua própria incorrupta pureza.
É o primeiro romance publicado por Patrick Süskind, um alemão nascido na Baviera, que até aqui escreve uma única peça para o teatro. Com O Perfume, Süskind emergiu meteoricamente do anonimato. A crítica internacional dos mais diversos sectores tem-no distinguido como um dos mais importantes romances desta década, constituindo este livro um dos mais assombrosos casos de bestseller dos últimos tempos, em todo o mundo.
Opinião:
Este livro foi o foco da minha primeira leitura conjunta e devo dizer que foi um excelente ponto de partida dada a discussão de ideias que originou. Juntamente com a Cata do
Páginas Encadernadas e com a Catarina do
Little House of Books, verifiquei aquilo que já suspeitava quando andava à procura no Goodreads: este é um daqueles livros que suscita opiniões muito díspares, um daqueles casos em que é notória a necessidade de tirar as suas próprias conclusões, uma vez que a experiência da leitura contrasta bastante de pessoa para pessoa. Pessoalmente, não estava à espera de gostar tanto.
Para começar, aquilo que mais me prendeu foi a escrita do autor. De modo geral não gosto de estilos muito descritivos mas esta foi a excepção à regra. A forma como descreveu cada um dos odores que iam surgindo, fielmente e sem adornos, não se tornou nada cansativa e facilita ao leitor a capacidade de se envolver nesse ambiente, enriquecendo a narrativa apesar do ritmo lento e da falta de acção.
Em relação às personagens, a verdade é que dificilmente somos capazes de sentir qualquer empatia com quem quer que seja. Se por um lado temos aquelas que servem de meros actores no caminho de Grenouille - não deixando no entanto de entrever uma certa profundidade através das suas motivações e das suas filosofias de vida -, por outro o nosso protagonista, o nosso assassíno, é uma personagem bastante distante e fora do comum. Isto é, aliás, algo indiciado logo no início devido à sua falta de cheiro, uma característica que, no contexto do livro, considero uma alegoria para uma carência muito mais relevante e íntima, a de não possuir qualquer emoção ou afecto face àqueles que o rodeiam.
Servindo-se da sua capacidade de distinguir os mais ínfimos aromas, o seu único propósito de vida será criar o perfume perfeito, aquele que representará a Beleza no seu estado puro e absoluto, o que acaba por conduzir a um final cujo significado pode estar aberto a discussão. Na minha interpretação pessoal, penso que remete para o perigo que é viver obcecado com sentimentos utópicos, viver sem ter consciência de que nada nem ninguém pode ser perfeito ou tal e qual o idealizamos e para o quão efémero costuma ser o valor que damos aos nossos desejos materiais a posteriori.
Outro aspecto que me agradou bastante foi a clara manifestação do destino. Será que este já se encontra traçado ou somos nós que o vamos construindo no nosso dia a dia? O autor deixa clara a sua posição, adicionando inclusive uma aura de ironia.
Dito isto, O Perfume foi bem diferente do que estava à espera. O subtítulo (História de um Assassino) pode mesmo ser considerado um tanto enganador porque se estão à procura de um thriller em que as mortes sejam minimamente descritas este não é o indicado. Mesmo assim recomendo a leitura. Não prometo que vão gostar a 100%, mas de certeza que não vos deixa indiferente.
Classificação: 5/5